domingo, 13 de setembro de 2009

Arrogância intelectual e inveja poética!

Acolho a assertiva de que ostentamos vários estados de vida em nossa única vida. Portanto, do estado de inferno ao estado em que se deseja a felicidade do próximo, Divino naqueles dias transitava numa rapidez que assustava o próprio pensamento! Do inferno ao paraíso era um vapt vupt! Penso que alguém, de alguma forma, o magoara. Olhava somente para si. Atacava. Agredia. Certo, somente ele. Coisa chata.

Ops! Esquecia-me de dizer que Divino se dizia poeta. Contudo, seu código poético, às vezes, não lhe permitia desvendar as condições específicas contextuais do entendimento que emergia das suas palavras. Confundia-se com aquela coisa toda de que o poeta é um fingidor ou de que o poeta, quando expressa seus sentimentos sobre a realidade, não sabe contê-los nos seus atos... Contraditório, entre um poema e outro; entre um comentário e outro. Nas suas palavras o poeta é um robô: mecânico, é um tolo que não pensa, não ama, não fode, não goza. Nenhuma virtude, nenhum prazer. Um nada.

Divino era “O Invejoso”, por natureza. Fixava-se em alguém... e não mais se desligava do objeto da sua mente esquizofrênica. Perigoso, isso. Aliás, descobri que tinha ideia fixa em mim-poeta. Se escrevia sonetos, ridiculariza-me: era retrógrado! Se realizava uma ciranda poética sobre um mesmo tema, acusava-me de chover no molhado: era inábil! Se escrevia sobre o amor: que mal amados, esses poetas do amor! Sobre a paz: utopia inútil! Sobre o medo e o ódio: era um pessimista infeliz! Se escrevesse poemas livres, sem métrica e rima, seria um incompetente: nada entendia de poesia! Se demonstrasse sensualidade nos meus versos era porque esconderia desejos irregistráveis: talvez fosse um tarado sexual em potencial desses que adora garotinhas e, talvez, garotinhos!

Não entendia, o infeliz Divino, que uma coisa é a apreciação fundada num juízo de valor competente e a outra é o achincalhado vulgar e banal que nos faz “parecer” verdadeiros intelectuais. Talvez Divino compreendesse que o poeta pode ser um fingidor circunstancial, mas não sabia que o poeta nunca engana! Não se apercebia ao menos, que ao sabor daquela confusão - ele "poeta" - expunha abertamente seu interior, quase sempre sujo e truão. Feio, mas este era Divino. Meu melhor amigo. Deixo isso bem claro. Gostava dele, mas não posso deixar de apontar-lhe os defeitos. Só não teria coragem de falar diretamente. Não, isso não. Poderia ficar de mal comigo.

Às vezes, pela madrugada, quando ninguém estava a olhar, tal qual um ladrão, escondido, Divino criava vários personagens e através deles zombava dos demais poetas. Sei disso porque, numa sexta-feira, descobri. Estava sozinho num blog público, postando meus poemas. Ninguém entrava, ninguém saia... Então, Divino entrou. Eram 3:45hs da madrugada. Soltou seu primeiro torpedo carregado de inveja. Em seguida, como num passe de mágica, diversos outros “poetas” entraram, para elogiar seus dizeres. Tudo sem criatividade. Os nomes das meninas terminavam todos em “inha”; os meninos traziam nomes misteriosos, com diversas consoantes, ou, então, ostentavam nomes óbvios. A alguns desses nomes anexava poemas, muitos desses tão medíocres quanto a sua criação!

Pela madrugada relembrei a irmã de outro amigo meu, da juventude. Frustrada, frustrada porque não arranjava um namorado. Inventava histórias e mais histórias. Até eu fui sua mira apaixonada. Mas, juro que não dava para encarar. Certa vez, estava a caminho da sua casa e, ao passar frente a uma floricultura, encontrei-a. Ao me perceber do lado de fora da loja, acenando-lhe, pediu-me que a esperasse em casa. Fui. Poucos minutos depois, Martha (esse era seu nome) chegou. Ficamos a conversar junto com sua mãe e as outras irmãs, todas solteiras, também. De repente, a campaínha da porta tocou. Martha gritou para a empregada: “Olha a porta, Cleusa!” Em segundos, respondeu a voz arrastada e assanhada da pequena e atrofiada empregada: “Marthaaaa, é prá você!” A moça levantou-se e foi até a entrada da casa. Deu um gritinho de surpresa e retornou à sala com um belíssimo buquê de rosas vermelhas. Comentário geral: “A cor da paixão... Tá podendo, heim, Martha! Quem as enviou?” Enlanguecida e vaidosa, a entusiasmada jovem começou a procurar o cartão do apaixonado. Ah! Que poético! Era Anônimo! Quem seria o misterioso encantador, perguntaram todos? Eu sabia, mas calei.

Agora, ali na minha frente, acontecia algo parecido. Engraçado, né? Por medo de não encontrar leitores, Divino “criava” seus próprios leitores/críticos e se auto elogiava ou perturbava a paz poética que adormecia o tal ambiente virtual. Divino e suas criações, naquele momento, pareciam vir da mesma festa, vitimados pelo mesmo ópio do desamor. Ouvi dizer que dormiram na mesma cama, numa louca e pregressa orgia intelectual, onde o ódio e a malvadez humana predominaram. Facilidades e “reversões éticas” do mundo contemporâneo.

Pelas sendas dos 40 anos, Divino parecia enfrentar algum problema existencial muito sério. O corpo do meu amigo reagia às suas extravagâncias: encontrava-o pelas ruas cambaleando, macambúzio, jururu. O rosto cheio, amarelado, quase sem viço, contrastava com uma careca brilhante, lustrosa e bonita. Era bem limpinha e rosada sua cabeça, num contraste à alma negra e pérfida. Trazia um sorriso aberto, grande, cheio de dentes brancos e de uma alegria falsa. De voz macia e discurso arbitrário comovia mocinhas solitárias e carentes. Dignos de pena. Ele e elas.

Ah! Tenho tantas coisas a contar do meu grande amigo Divino! Mas, uma delas, não perdoei! Não tenho sangue de lagartixa, pôxa! (por falar nisso, lagartixa tem sangue?)

Certo dia, Divino ou uma das suas “criações” escreveu um poema intitulado “O POETA”. Percebi que aquele não era um poema sobre a significação universal do poeta, mas que, sob um título geral, individualizava sentimentos e ações. Como poderia afirmar que por não saber ele próprio amar ou oferecer carinhos, todos os outros poetas não o saberiam? Seria o mesmo que universalizar as suas malquerenças. Era noite alta quando li e reli seu poema. Antes mesmo de terminar a leitura, comecei a rir. Quanta arrogância intelectual! Alguém lhe outorgara poderes? Como ousara falar em nome de outrem, sem ao menos saber a extensão do seu próprio eu? Tudo, exatamente tudo o que escrevera naquele poema era sentimento próprio. Alegrias, tristezas, certezas e inseguranças... um mundão de frustrações... tudo era Divino!

Ao final, li a dedicatória: oferecera a mim, aquele absurdo! Pode, isso?!! Em estado de inferno, quase a rugir de raiva, mal esperei o nascer do dia. Aos primeiros raios de sol imprimi o tal poema, fui até sua casa e rasguei “O POETA” na cara dele. E, como bom poeta, anunciei acintoso que aguardasse uma resposta, quiçá sob a película de um soneto (frustração antiga de Divino!). Ah! Se faria!

Cheguei em casa, bufando! O que entenderia aquele idiota, a respeito de Poesia ou dos poetas? Seus escritos eram uivos de raiva e frustração. Nada de poesia! Nada! Nada! Deformidades, simplesmente! Sentei-me ao computador e escrevi, minutos sem parar. Meus sentimentos afloravam numa rapidez demoníaca. Li. Agora, sim! Especialmente escrito para um Divino que necessitava aprender lições de humildade poética. Detalhei verso a verso, rima a rima o “eu-poético” daquele abelhudo! Sabia tudo de Divino. Afinal, era seu melhor amigo! Modéstia à parte, pela facilidade extraordinária que ostento para escrever qualquer coisa, foi muito fácil a vingança! Aquilo, sim, era poema de verdade! Criei um decassílabo-sáfico-heróico, observando a sonoridade na 4ª, 6ª, 8ª e 10ª sílabas poéticas acentuadas, mais fortes, intitulado: “TU, DIVINO POETA!” Não admito arrogância intelectual, nem falsidade! Muito menos entre poetas... amigos!

Divino morreu. Encontraram-no, abandonado, todo roxo, quase apodrecido, com um monte de folhas brancas entupindo-lhe a garganta. As folhas, mesmo brancas, fediam muito, também!

Triste fim. Gostava dele. Era meu melhor amigo. Fico a pensar: será que a inveja mata, mesmo?

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Ofereço este conto à arrogância intelectual latente em cada um de nós. Não devemos nos esquecer de que, para cada dedo em riste que apontamos para outrem, existem três outros apontados para nós mesmos. Qualquer semelhança com a realidade é fruto de mera coincidência ou necessidade de ilustração.
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Sílvia Mota.
Cabo Frio, 13 de setembro de 2009 - 13:38hs.

domingo, 2 de agosto de 2009

meus versos na madrugada fria...

Aquele friozinho gostoso... uma preguiça gostosa... um soninho gostoso, interrompido por um barulho ou um desejo qualquer.

Acordada, então, ou "quase acordada", permaneci enroladinha no meu edredon de oncinha, vestida num babydoll vermelho, quietinha, pensando na vida, pensando... Mas, com aquele frio, enfiada num babydoll? Sim, esse é um detalhe próprio da minha intimidade. Eu-mulher funciono assim; o que fazer? Frio, supero com edredon e, se necessário, envolvo-me num cobertor, ou dois, ou três, ou mais. Mas, meu eu-fêmea, para dormir, abasteço com lingerie bonita e rendada. Disso, não abro mão. No concernente à fêmea, à noite, acordada... Ah! Isso sugere outros contos! Acompanhada, então! Outros mil contos!

Mas, voltemos ao que interessa. Naquele momento, estava só. Então, algumas palavrinhas poéticas iniciaram uma brincadeira no meu pensamento. Lindas! Inocentes! Soltas! Graciosas! Serelepes! Precisava registrar tanta beleza! Mas, logo naquele momento? Sairia dali, não. Frio. Muito frio e muita lassidão!

Minha preguiça resmungou, aconchegando-se ainda mais ao edredon: "Ahnnn! Amanhã escreverei este poema..."

Minha consciência poética respondeu: "Amanhã, terás esquecido..."

Minha preguiça retrucou: "Claro que não! Muito bonito, para esquecer! Amanhã, agora não..."

Minha consciência poética insistiu: "Lembra-te daquela noite, na estrada? Não me destes ouvidos, preferindo cochilar, preguiçosa, ao balanço do carro. Viste no que deu! Nem do primeiro verso te lembravas mais, quando chegaste ao destino!!! E, eu, te castiguei, escondendo aquela maravilha!"

Minha preguiça: "Mas está frio... estou com sono... amanhã..."

Minha consciência poética desabafou, quase raivosa: "Tudo bem... Talvez percas, mais uma vez, um pedaço de ti, ou, quem sabe... um pedaço de alguém..."

Foi o que bastou. Afinal, tanta coisa boa perdera na vida, por não dar ouvido à minha consciência! Afastei o edredon, lentamente. Levantei-me e, entorpecida, arrastando os pés langorosos, acendi a luz do escritório, apanhei o primeiro pedaço de papel que vi na minha frente (será que vi, mesmo?), segurei a preguiçosa caneta e rabisquei meus versos. Reli aqueles garranchos, rapidamente, porque era urgente voltar para a cama. Li e gostei do que li e repeti tudo em voz alta. Só mais uma vez... depois iria para a cama... Não é que eu estava ficando danada de boa naquele negócio? Declamei, com ardor... e, então, perdi o sono... Adentrei a madrugada escrevendo versos de amor. Rompi o dia. Ingressei no dia. Naquele frio, de babydoll vermelho. O edredon de oncinha? Solitário, na cama vazia e desfeita.

Sílvia Mota.
Cabo Frio, 29 de julho de 2009 - 9:05hs.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Sedução: que voz!

Tudo se iniciou no mundo virtual. Março de 1996. Gengis Khan descobriu-me, neófita em coisas da Internet e chegou de mansinho, ensinando-me, pouco a pouco. Ganhou-me a confiança, em primeiro lugar, porque nunca me perguntou a idade, o que não acontecia com os outros internautas, que, mal se dirigiam a alguém, lançavam logo a pergunta: “QT anos vc tem?” Se a resposta fosse mais de 25, nem existiriam despedidas. Quando muito, um simples: “OK” e um silêncio mortal do outro lado.

Algumas semanas depois, porque talvez estivessemos ardendo de curiosidade, mais eu do que ele, escrevi: “44.” Gengis Khan respondeu: “43” e continuou a conversar comigo, internauta medrosa de perder mais um possível amigo virtual em razão dos anos corridos em minhas veias. O que o tempo comprovou, jamais ocorreria.

Pois é, foi assim que eu, Flor Morena, conheci Gengis Khan. Aliás, denominamo-nos desse modo, ele, porque meses após o primeiro encontro virtual anunciei-me morena de olhos verdes e eu, porque, aquele atrevido ousou enviar-me uma foto, sem que fosse pedida, de cabelos compridos, amarrados atrás, num rabo de cavalo, o que foi suficiente para estimular minha imaginação fértil, que associou aquela imagem à lembrança de homens misteriosos perdidos num deserto. Gengis Khan desconhecia minha imagem, mas passei a ter como ponto de referência aquela foto-família. Sim, porque o internauta, até então desconhecido, tratou de se apresentar como mandam as regras do bom homem de família: enviou-me uma foto onde aparecia com o primeiro neto ao colo.

À época eu estava casada; Gengis Khan, descasado. Em pouco tempo, alguns fatos de um malfadado casamento deixaram-se escapar por entre as linhas digitadas e apagadas e digitadas de novo. Também, os problemas com a ex-mulher afloravam pouco-a-pouco. Tênues reclamações, somente para justificar o fato de uma mulher casada conversar com um homem descasado, pela madrugada afora, enquanto o marido dormia, pensando-a somente envolvida com diversões inocentes. Meu casamento transformara-se em forte dependência um do outro, com entremeados de violência, cabendo ao Gengis Khan suprir aqueles momentos de tristeza e ele bem soube fazer isso.

No primeiro chat, particular, a convite dele, senti-me entrando num motel. O corpo tremeu, da cabeça aos pés; nas mãos, um suor nervoso; no pescoço, um coração que ritmava quente e, entre as pernas, um sexo que chorava... Medo e excitação. Ternura e fogo. Minha primeira vez... Adolescentes, os dois. As primeiras palavras, embora tecladas em silêncio, soaram mais alto do que um primeiro roçar de peles. Sensualidade, nada mais.

Para encurtar a conversa, posso dizer que depois de cinco anos, a partir do primeiro encontro virtual com Gengis Khan, descasei-me. Quando isso ocorreu, ele que se apresentara descasado à época, casara-se novamente. Desencontro. Desencontro que não foi suficiente para amainar os primeiros jogos de sedução virtual. Na primeira escuta de voz ao telefone, então, quem se impressionou mais com a voz de quem, impossível dizer! Ele: “Parece uma menina!” Eu: “Que voz bonita!” E, aquelas vozes que se atraíam, começaram a se ouvir com mais continuidade. Primeiro encontro marcado e desfeito. Mais outro... e nada! Eu fugia, sempre.

Um dia, então, o pacífico Gengis Khan enviou-me outra foto, desta vez com os ombros desnudos. Emudeci. Nada respondi. Nem um comentário ao menos, por medo de me perder nos efeitos daquela quase-nudez que, aliás, naquele momento, devido aos meus desejos insatisfeitos, surtiu o efeito de uma nudez-total.

À noite, na cama, o marido dormiu displicente, alheio aquela veleidade toda. Ao seu lado, eu - uma mulher em fogo - buscando-me em mim mesma, num silêncio desesperador, quase incontido.

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Sílvia Mota.
Início: Cabo Frio, 9 de julho de 2009.